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Não dá pra agradar todo mundo

24/05/2016

Dia desses fui com poucos e bons amigos a um café que pode ser considerado acima da média. Bom, não que a gente esbanje dinheiro, longe disso. Porém, às vezes gostamos de ostentar um pouco.

Coloquei minha nova saia favorita e achado de um brechó, até os joelhos, uma blusa de manga comprida e minha sandália que eu considero o calçado mais ousado que já comprei na vida – e o mais lindo, talvez?

Um dos meus amigos estava usando um suspensório (o que eu achei o máximo), e aquilo foi uma das coisas que rendeu boas conversas no fim de tarde. Comentamos sobre como se vestir é algo que vai muito além de colocar uma roupa. Se vestir pode ser uma forma de comunicação, se você quiser. Aliás, não apenas se você quiser, pois de certa forma aquilo pode dizer muito sobre você, queira ou não queira. E por mais que para muitos isso possa soar fútil, nossa conclusão naquele dia é que quando nos vestimos com o que queremos, como queremos e sem seguir a algum padrão, é muito libertador.

Eu sou muito adepta a essa ideia, que se vestir é um processo de descoberta, de identidade e personalidade. Ao menos para mim é assim, e eu percebo que essa descoberta, cada dia que passa, se torna mais real e genuína no modo de me vestir.

Eu já passei por muitas fases e, em muitas delas, devo admitir que eram por pura influência externa e não realmente o que eu gostava – o que está totalmente ok, afinal, é provando que se descobre, certo?

Vamos pular do meu nascimento – em que eu não tinha muito palpite sobre minhas roupas – para o dia em que, com uns 8-10 anos de idade, eu usei um casaco maravilhoso para ir no inglês. Era frio e aquele casaco me deixava quentinha e parecida com uma ovelhinha. Eu realmente gostava. Porém, ao chegar na escola, tive que ouvir a professora perguntando se eu estava indo para o Polo Norte. Sim, aquilo me deixou muito mal. Ela tirou sarro do meu casaquinho e conseguiu, mesmo sem intenção ou maldade, me fazer abandonar ele para sempre no fundo do guarda-roupa.

Eu fui crescendo e até que parei de ligar para a opinião alheia nesse ponto da vida. Tanto é que, dentre as minhas amigas do colégio, eu era a mais fora do normal. Usava meu cinto de tachinhas, meu cabelo meio rosa, meu olho pretíssimo e meu All Star todo assinado (eu achava o máximo). Depois, fui chegando na fase dos 16 anos e me rendi ao padrão de todo mundo a minha volta. Talvez eu quisesse me enquadrar naqueles grupos, mas no fundo, eu estava realmente perdida.

Foi quando eu entrei na faculdade que meu processo de descoberta sobre minha identidade foi acontecendo de verdade. Acho que pelo fato de ir morar em uma cidade maior, conviver com pessoas que ainda não me conheciam, me trouxe coragem para me deixar ser quem eu realmente era. Infelizmente, nem tudo são flores, e pela segunda vez eu fui bloqueada por uma pessoa que, essa sim, foi maldosa. Em uma tarde, quando ainda caloura, eu coloquei um vestido, um colete e um oxford azul. Saí confiante, feliz e me sentindo corajosa por vestir aquela roupa que não era tão usual para mim na época. Mal cheguei na esquina de casa e uma menina, acompanhada de seu namorado, disse: “Não deu certo, ficou horrível!”. Pronto, esperei eles sumirem da minha visão, voltei para casa e caí aos prantos.

Queria saber onde eu tinha aprendido a me importar com a opinião alheia daquela forma, como aquilo me afetava tanto. Mas, hoje eu entendo. Era todo um processo de aprendizagem. Eu não imaginava que, aos meus 23 anos, em um café que, como a sociedade diz ser, apenas pessoas educadas frequentariam, eu precisaria lidar com algo semelhante.

Voltando ao início desse texto, depois de horas de conversa no café, chegaram dois casais. Antes mesmo de sentarem na mesa ao nosso lado, começaram a dar risadinhas descaradamente olhando em nossa direção. Não entendemos nada e deixamos pra lá. Continuamos com nosso papo. Acontece que, nem as duas mulheres, nem os dois homens, paravam de olhar para nós e rir. Foi então que ouvi de uma delas: “Isso não pode ser normal”.

Não, não existia motivo algum para rirem. Realmente tentamos entender o que poderia ser, cheguei a cogitar que fosse pelo meu novo corte de cabelo, talvez? Mas será possível? Até que eu olhei para minha linda sandália e pensei na possibilidade de ser ela o motivo. Só que duvidamos disso, até que em certo momento uma das mulheres estava rindo e olhando diretamente para ela, minha sandália. Nossa indignação ia além do aparente motivo da graça, mas era também pela necessidade de todos eles rirem, de querer constranger alguém assim, lado a lado, sem ao menos nos conhecer. E sim, com um olhar maldoso e intencionalmente ofensivo, superior.

Foi então que meu amigo foi ao banheiro e voltou sem o casaco. No caso, agora o suspensório era visível e todos na mesa riram descaradamente do tipo: “E agora, mais essa?”. É, eu e meus amigos ficamos em choque, assim como eu espero, você está.

Ao sairmos do café, pasmos por perceber como ainda existiam pessoas tão fechadas em seu mundo, nos padrões e no que é ou não normal, eles nos encararam até o momento de fecharmos a porta. Fico pensando o que eles achariam se eu dissesse que penso que roupas não deveriam ter gênero. Bom, mas isso é assunto para outro dia.

Diferente da época em que eu tinha meus 18 anos, caloura, em uma cidade nova e em pleno processo de descoberta, eu não senti vergonha alguma por estar usando aquela sandália maravilhosa – por estar usando o que eu queria. E isso foi incrível, pois quando você realmente descobre sua identidade, simplesmente não se importa nem mesmo se rirem na sua cara. A autoconfiança e autoestima são tão superiores a um riso maldoso ou ao que é considerado normal para uma sandália, roupa, cabelo ou seja lá o que for que te faça bem, que nada, nada mesmo, pode te abalar.

Não dá para agradar todo mundo. E afinal, porque eu iria querer isso?

quando tudo parece tão simples

14/03/2016

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De repente você apareceu assim, sem avisar.

É estranho eu nunca ter te visto antes. Não é irônico como sempre frequentamos os mesmos lugares e nunca nos trombamos por aí?

Você me viu primeiro. Aliás, eu não canso de perguntar sobre esse primeiro olhar, de querer saber como diabos tudo aconteceu. O porquê de alguma forma eu chamei sua atenção no dia que eu menos queria chamar atenção. No dia que eu mais estava na minha. Talvez seja por isso que naquela noite eu não notei ninguém – nem mesmo você.

É louco saber que você sem querer caiu no meu facebook naquele mesmo dia.

E aí chegou outro dia, o dia que eu te vi pela primeira vez. Sem planos, sem saber que isso aconteceria. Que você estaria lá, no palco com a sua guitarra que eu mal sabia, mas iria embalar canções que em algumas semanas cantaríamos juntos nas tardes de domingo.

Eu por sorte levantei para ir ao banheiro. Por sorte olhei para o palco. Por sorte vi você. Por sorte decidi ir lá, quase na sua frente. Por sorte dei um oi tímido com a mão. E por destino, talvez, nossa primeira troca de olhares ficou registrada.

É louco saber que já faz todo esse tempo. Caramba!

Ao mesmo tempo que parece muito, é pouco. E vice-versa.

Há quase 5 meses que de repente você apareceu na minha vida e tudo aconteceu com uma naturalidade tão grande que às vezes me assusta.

Eu ainda não sei explicar a gente – nem sei se preciso tentar. Afinal, parece que a gente se explica por si só. Por sermos cada vez mais nós mesmos quando estamos juntos, quando conversamos sobre tudo e mais um pouco, quando nos olhamos fixamente por longos minutos e o silêncio não nos incomoda – nos deixa mais conectados.

Ouvir. Conversar. Entender.

Sonhar. Planejar. Realizar.

Confiar. Amar. Viver.

É assim.

Talvez toda essa nossa sintonia seja tão simples, pois tudo foi simples. Tudo é simples.

Natural, como nós.

o mundo que sempre esteve em mim

09/11/2015

De um lado eu vejo três meninas com um coque no alto, maquiagem marcante e ao mesmo tempo delicada, vestindo o tutu e a sapatilha de ponta. Logo elas treinam 3 ou 4 rodopios sem se importar com quem está olhando. Caminho mais um pouco e vou escutando mais alto as batidas do hiphop. Me deparo com uma pequena pista xadrez e várias pessoas batendo palma, vibrando a cada conquista de passos improvisados dos dançarinos que se desafiam bem no meio de todos, e que ao fim de cada batalha, se cumprimentam com um tom de admiração pelo seu concorrente.

Vou ao banheiro e são inúmeras garotas vestindo seus figurinos, relembrando passos e fazendo o delineado mais perfeito possível. Volto para minha cadeira ansiosa por cada movimento que me aguarda naquele palco e me deparo com 4 amigos com os dreads mais loucos e incríveis que já vi na vida, dançando de uma forma hipnotizadora ao som da música que alguém deixou tocando enquanto o festival não começava.

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Esse é o mundo que eu sempre sonhei em pertencer e nem sabia direito como era. Cada apresentação, cada passo, batida e movimento me deixavam mais certa de que esse mundo deveria fazer parte da minha vida e eu dele. Nele eu senti toda a liberdade e expressão que a dança sempre me proporcionou, mesmo quando somente eu, meus movimentos e o espelho do meu quarto. Eu sempre quis e nunca soube como.

Todos aqueles ritmos, aquelas tribos, aqueles movimentos que fazem com que cada um ali se identifique de alguma forma e pertença ao mesmo mundo. É um mundo que arrepia e faz sentir. É cheio de sentimento, de emoção e de entrega. Repleto de liberdade e da expressão mais profunda que queremos compartilhar com o mundo.

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A dança sempre me trouxe todos esses sentimentos, e durante minha pausa das aulas por 7 anos, meu espelho passou a ser o único a refletir todos eles. Pode ser às 4h da manhã em que no auge da insônia eu sou capaz de transferir a minha mente para um palco e me expresso literalmente como se ninguém estivesse vendo. Pode ser quando caminho na rua acompanhada pela música nos fones de ouvido, onde minha mente começa a viajar, criar passos e coreografias, as quais surgem sabe-se lá de onde. Meus pés e braços tornam-se impacientes e o que eu mais desejo nesses momentos é explodir essa impaciência em movimento.

A dança me faz e sempre me fez sentir liberdade. Ela é capaz de me fazer expressar um eu interior que nada mais consegue transparecer, pois eu me entrego sem medo e sem receio. É natural. Ela foi a minha primeira paixão, a mais genuína e sincera de todas – aquela que se descobre sozinho mesmo, sabe? A cada movimento tenho mais certeza de que este mundo sempre esteve em mim, e hoje de volta, descobri que nunca deixei de pertencer a ele.

maisuma

Sobre desconstruir

04/11/2015
desconstruir
verbo
  1. 1.
    transitivo direto
    destruir ou desfazer (algo).
  2. 2.
    transitivo direto
    desfazer para reconstruir (o que está construído, estruturado), freq. fugindo a alguns princípios estabelecidos pela tradição.

Você já parou para pensar as razões que levam o cálculo da Báskara ser como é? Qual será a verdadeira essência dele? Quem criou ele, afinal? Você simplesmente decorou a fórmula e resolveu aquelas questões na prova no automático? Como será que essa fórmula se tornou aquilo que o professor escreveu no quadro e disse para você que era o certo?

Para todas essas perguntinhas, existe um por quê.

É assim na vida, sabia? Tudo na vida tem um motivo, uma razão e um caminho pelo qual tornou tudo o que existe como é repetido e repassado para quem vai surgindo aqui nesse mundo, para as novas gerações. É assim que vai se construindo uma sociedade, uma cultura, as tradições, as normas, leis e até mesmo o bom senso.

Você já parou para pensar o porque as mulheres no passado, e ainda no presente, normalmente são responsáveis por cuidar da casa, cozinhar, costurar e serem as principais responsáveis por cuidar dos filhos? Você já parou para pensar lá no fundo as razões que levam a ter mais homens em cursos de engenharia? Por que quando um homem e uma mulher se separam normalmente o filho fica com a mãe?

Qual será a razão de comerciais de cerveja usarem a figura feminina sempre de uma forma sexualizada? É porque vende mais e fala a língua do homem? Por que será que precisa ser essa a linguagem para se comunicar com homens? Aliás, será que mulheres não andam consumindo cerveja tanto quanto homens? Será que existem tantos casos de estupro porque homens simplesmente seguem seu instinto e não tem capacidade de se controlar?

Será que cabelo liso é mais bonito do que cacheado e encaracolado? Será que as meninas alisam seus cabelos simplesmente porque gostam e se sentem bem, ou porque foram influenciadas a isso? Será que os padrões de beleza tem tanto poder na vida de uma menina a ponto de ela não se gostar do jeito que é?

Já se questionou alguma vez do porquê é tão raro encontrar um protagonista de novela ou filme negro? Você acredita que é porque existem poucos atores negros? Por que na sua sala de aula é tão pequena a quantidade de pessoas negras? Por que você quase não tem professores negros? Aliás, você já teve um? Será que cotas para negros é uma forma de segregar ainda mais as pessoas ou será que não é uma maneira de mudar essa realidade?

Será que pessoas do mesmo sexo se apaixonarem é realmente um absurdo e uma ameaça a verdadeira essência de família? Mas afinal, família só pode ser composta por um casal de homem e mulher e seus filhos? Quem disso isso? Homossexuais existem desde quando? Aliás, será que homossexualismo também não existe no mundo animal? E o aborto, será que essa não é uma escolha que deveria ser feita pela própria mulher, dona do seu próprio corpo?

Será que a carga horária de trabalho ser de 8h por dia faz sentido mesmo? Quando isso foi definido, qual era o contexto da nossa sociedade? Será que não chegou o momento de repensar  sobre o que seria produtividade e eficiência no trabalho? Faz sentido mesmo relacionar isso com quantidade de horas trabalhadas ou faria mais sentido relacionar com a qualidade do trabalho final?

Será que todo mundo precisa casar antes dos 30? Aliás, será que todo mundo precisa casar em algum momento na vida? Quem criou a ideia de casamento? Por que somos ensinados a ser monogâmicos? Será que deveria ser assim ou só isso pode ser aceito?

Toda mulher tem que engravidar, precisa ter o sentimento de maternidade dentro de si e querer ter filhos? Será que faz sentido mesmo só a mulher ter licença maternidade? Por que não existe licença paternidade também? Porque não existe fraldário no banheiro masculino?

Questionar cada um desses fatos, das coisas como são e sempre foram, não é querer ser chato não. A vida é questionável. Nossos costumes são. As tradições também. O fato de que algo sempre foi assim não é justificativa para que continue a ser. É necessário sim desconstruir e tentar entender as raízes.

Será que realmente deveria ter sido sempre assim? Será que é certo mesmo porque sempre te disseram que era?

A escravidão já foi encarada como algo totalmente normal, para algumas pessoas até mesmo um favor e uma oportunidade, sabia? Em algum momento alguém se questionou sobre isso e justamente por essa desconstrução sobre algo que já havia se tornado tão natural, essa prática, hoje encarada como inaceitável, foi abolida.

Desconstruir é ser mente aberta. É procurar ser justo e entender muito além do que colocam na nossa frente e nos dizem ser o certo desde que nascemos. É natural que nossos pais, avós, bisavós e tatatataravós nos ensinem o que seus respectivos pais lhes disseram ser o correto. Acontece que não é porque eles nos ensinaram isso, que realmente deva ser assim. Não é que eles sejam pessoas ruins, longe disso. Eles simplesmente repassaram o que seus pais lhes ensinaram também e isso é um ciclo que não tem fim, mas cada um desses ensinamentos pode ser desconstruído. Imagine desde quando esses ensinamentos não sofrem modificação alguma e o quanto a sociedade mudou desde então? Será que não é necessário mudá-los, adaptá-los ou simplesmente parar para pensar um pouco sobre eles?

A vida precisa ser uma eterna desconstrução, afinal tudo muda, constantemente. Nós mudamos constantemente.

Não é chato desconstruir, na realidade é necessário. Então vamos desconstruir mais?

Se você nunca teve um professor negro, será que é realmente porque nenhum negro tentou ser professor na sua escola/faculdade ou será que é por não existirem oportunidades para eles chegarem lá? Será que o fato de existirem mais homens em salas de engenharia não é porque desde cedo os brinquedos destinados a meninos são carrinhos, objetos de construção e tudo aquilo que estimula o lado mais racional do ser humano? Meninas, será que quando a gente nasce a nossa tendência a querer algo cor de rosa não é por simplesmente gostarmos, mas por sermos automaticamente influenciadas pelo ambiente em que vivemos, as cores de roupa que nossos pais escolhem e pintam nosso quarto antes mesmo que chegarmos ao mundo?

Será que tudo deveria ser mesmo como é? Será que existe uma resposta certa para cada coisa? Não sei, não sei mesmo. A única coisa que eu sinto ser certa aqui é que precisamos colocar mais Será? e mais Por quê? no nosso dia a dia.

Muita gente diz que a fase dos porquês de uma criança é a fase mais chata delas. Eu acho que é uma das fases mais importantes na vida de alguém. Para ser sincera, acho que deveria ser uma fase eterna.

Desconstruir é reconstruir – é evolução.

quando amores platônicos acontecem

30/10/2015

Já tive inúmeros amores platônicos. Sim, é verdade. Simplesmente nunca achei que qualquer um deles pudesse acontecer.

Ora, se acontecessem não seriam platônicos.

Seriam na verdade amores possíveis, mesmo que por um rápido momento, um piscar de olhos, um toque – assim eu acreditava.

O que descobri de repente é que amores platônicos também acontecem, mas nem por isso deixam de ser platônicos. Eles podem acontecer e você pode provar daquilo que só imaginava, tentava descobrir como seria, mas tinha a certeza de que nunca se tornaria realidade.

Esses amores platônicos que acontecem você bem sabe que serão platônicos para sempre, por mais que se repita uma ou duas vezes. Eles são amores impossíveis, sempre serão. São amores que nunca deveriam ter acontecido e você estava conformado com isso, desde o dia em que percebeu que gostaria de provar daquilo que não poderia ter, até o dia em que provou e confirmou seu imaginário. E mesmo depois desse dia, você sabia tão claramente que era platônico que às vezes nem parecia verdade.

Você viveu aquilo tendo claro para si mesmo que nunca iria além. E o mais engraçado, é que sempre esteve muito bem com isso.

Ao mesmo tempo, você se entregaria de corpo e alma novamente. O dia seguinte seria como qualquer outro. Você não choraria, nem ficaria triste ou cobraria por uma mensagem. Afinal, você descobre que aquilo também é platônico da sua parte.

Um amor platônico nasceu para ser platônico, mesmo quando acontece na mais profunda intensidade que você poderia sentir. Mesmo quando é incrível. Mesmo que por algumas horas.

Ele te faz simplesmente viver um momento. Torna-se uma memória paralela. Uma lembrança que irá se confundir com todo o imaginário que você havia criado.

Mesmo quando acontecem, amores platônicos continuam platônicos em sua mais perfeita essência.

Continuam intocáveis e sem defeitos.

Amores platônicos que acontecem não te fazem chorar. Não te fazem sofrer.

Por isso eles são tão incríveis.

Eles não existem.

Apenas acontecem.

Querida Barbara,

03/10/2015

eu

Desculpa te chamar de Barbara mesmo sabendo que você não gosta, mas em algum momento você vai ficar mais madura e acredite, irá perder algumas dessas pirações que tanto estão na sua cabecinha aí, aos 13 anos de idade.

Queria te falar algumas coisas, alertar sobre outras e acalmar sobre tantas, mesmo no cansaço que estou agora após fazer um bolo com duas camadas e uma bela bandeja de brigadeiro para o seu 23º aniversário que está batendo na porta. É, agora quem faz o bolo do seu aniversário é você mesma, mas calma que muita coisa vai acontecer até esse momento da sua vida.

Eu sei que os 13 anos estão sendo um belo de um drama na sua vida. Não vou diminuir suas crises de adolescente, porque eu te entendo muito. Só queria te dizer que não, não é preciso ficar com medo por conta daquilo que descobriu há poucos meses sobre sua coluna. Eu sei que é complicado aguentar piadinhas no colégio, sei que é difícil ouvir que talvez você precise ir para uma sala de operação (e você vai), mas no fim, tudo vai dar certo. Em pouco mais de um ano, meu bem, você vai se emocionar em uma sala de UTI sentindo sua cintura novamente no lugar, e 10 anos depois, você finalmente vai voltar a se dedicar a dança e até praticar Yoga de cabeça pra baixo – mas eu devo dizer que você sempre vai sentir medo de se quebrar no meio, mas isso é algo que ainda estamos superando juntas e logo passa, hoje eu sei, tudo uma hora passa.

O que vai passar também são tantos amores na sua vida. Se eu pudesse ajudaria você a secar cada lágrima derramada por frustrações amorosas. Você é tão jovem e nem sonha quantos caras incríveis ainda irão passar pela sua vida, e como você vai perceber que nenhum deles merece tanto sofrimento assim. Você em certo momento da vida vai aprender que acima dessas paixões de adolescentes (eu sei que você odeia quando dizem isso, pois acredita que são amores de verdade, mas calma que uma hora você vai me entender), o que mais vale é o amor que você sente por você mesma, e Bah, você vai se descobrir tanto menina, que eu nem sei se deveria contar tudo ou te deixar descobrir sozinha.

Eu sei também que nesse momento da vida você defende a Christina Aguilera a ferro e fogo, mas da uma maneirada aí, viu? Você vai descobrir tantas músicas e cantores incríveis com o passar do tempo que vai acabar deixando empoeirar os CDs dela. Porém, eu sei o quanto ela foi importante na sua vida, e que provavelmente aquela música dela que você adora, Can’t Hold Us Down, te apresentou timidamente o feminismo que hoje se tornou algo tão importante para você.

Queria te dizer que hoje em dia eu invejo como você está sempre se sentindo bem consigo mesma. Isso é uma das coisas que eu queria te pedir para nunca perder com o passar do tempo, mas eu sei que em certos momentos da vida nós colocamos nossas pequenas imperfeições acima do quanto somos lindas da nossa maneira. Espero sempre conseguir te relembrar sobre como você tinha essa auto-confiança, mesmo nessa fase da adolescência.

Tem uma coisa que eu comecei a perceber. Você parece estar se sentindo meio deslocada aí no colégio, não? Começou a ficar mais na sua, que até mesmo seu professor perguntou se estava tudo bem. Seu primeiro namoro acabou, mas ambas sabemos que não é isso que te deixou meio quietinha demais, né? Acho que agora você entrou em uma etapa da vida bem determinante. O Ensino Médio está chegando ao fim e eu consigo sentir só de lembrar o quão insegura e o quão confusa você se sente. Você levou o terceiro ano do pior jeito possível, nós sabemos disso. Só queria que agora, em meio a esse choro diante do resultado do vestibular, eu pudesse te abraçar e dizer que este ano em que você vai mergulhar nos livros, vai ser uma reviravolta na sua vida e você nem sonha as coisas incríveis que te esperam.

De repente você começou a não ligar para a balada no fim de semana que vai ter na cidade vizinha. De repente você começou a gostar de história e geografia política, acredita? Também soube que você começou a gostar de ler e faz isso por puro prazer, quem diria. Eu sei que foi muito complicado mesmo depois de tanta dedicação, o meio do ano novamente te apresentar resultados negativos no vestibular da faculdade que a partir de agora se tornou um sonho aparentemente distante, mas olha pra mim, nesse mesmo segundo algo maravilhoso vai acontecer. Em meio a esse choro e soluços, você vai ir no computador, abrir um arquivo no word e começar a escrever. E isso vai te salvar e te acalmar, acredite, muitas vezes na sua vida. E você vai adorar isso.

Agora você já tem 18 anos, mas para se sentir livre o que mais precisa é daquela aprovação, é respirar novos ares e conhecer pessoas novas – você vai ter essa sensação tantas vezes mais na sua vida. E se tem uma coisa que eu já vi acontecer várias vezes com você, é não desistir das coisas que sonha, e transformar facilmente o não em motivação para tentar de novo. Acho que foi isso que fez você conseguir enfim a vaga que tanto sonhava, e é garota, aí está seu primeiro porre da vida!

Aqui é Maringá. Você ainda nem sonha, mas os próximos 5 anos da sua vida te mudaram tanto, mas tanto, que eu me arrisco a dizer que foi bem mais do que todos os anos anteriores juntos.

Eu sei que Administração foi um caminho que você escolheu e se arrependeu muitas vezes, mas bah, mesmo se eu conseguisse falar na sua mente agora, “Vai garota, tenta o que você quer mesmo e foca nisso, ignora o que todo mundo te disse nesse ano de cursinho”, eu não sei se teria coragem de fazer isso. A maneira como você teve que correr atrás de se encontrar e fazer aquilo que te desse prazer, te fez crescer muito e aprender tanto mais do que talvez aprenderia indo direto para o que sonhava. Você precisou dar um jeito, sabe? Precisou dar seus pulos para conseguir entrar no mundo que parecia tão distante. Eu sei que você odeia desistir das coisas. Por um lado isso é ruim, mas por outro, te faz insistir naquilo que quer, mesmo que o caminho seja com mais curvas.

Então se acalma, porque mesmo antes de formada você vai conseguir um trabalho dos seus sonhos. Hoje você sonha tão grande, tão alto, mas eu ainda não sei dizer até onde você vai chegar. A única coisa que eu posso dizer, é que a vida é uma bela de uma caixinha de surpresas e você aí, nem sonha tudo o que está por vir, os lugares que você vai conhecer (você acredita que EUA não é mais seu sonho e sua escolha de primeiro intercâmbio da vida foi para a Tunísia? Aposto que ainda não ouviu nem falar desse lugar) todas as pessoas que está prestes a conhecer e se identificar tanto, aliás, se você conseguisse dar uma espiadinha aqui, veria todas elas comendo o bolo com duas camadas que eu acabei de fazer. Mas não espia não, porque se você souber de tudo isso antes do tempo, não terá a mesma graça.

Só quero te dizer mais uma coisa, vai ficar tudo lindamente bem!

Beijos,

Barbara.

“Mais um caso”

14/09/2015

Há poucos minutos soube que nesse fim de semana mais uma garota foi vítima do que todas temem. Na frente da sua universidade. Poucas quadras longe de casa.

Não ouvi grito algum, mas cada vez que ouço “mais um caso”, eu me coloco no lugar dessas garotas anônimas, e a mistura dos meus sentimentos são raiva, nojo, dor e impotência.

Eu fico me perguntando constantemente a que ponto chegamos. Como é ilusório acreditar que somos livres. Como é ilusório achar que somos protegidas, que existe alguma segurança a nossa volta.

Um deles foi preso semana passada.

Após o rosto ir a público, só se ouvia “mais um caso”. Mais garotas reconheceram o agressor. Filho de Pastor. Que ironia.

Pode ser qualquer um.

Nunca ouvi o grito delas. O choro. Mas basta ouvir “mais um caso” que a mistura de sentimentos volta e chega a dar enjoo.

“Mais um caso” virou até piada.

São homens que não entenderam nada. Eles gritam aos 4 cantos do Jardim Universitário “mais um caso de estupro, mais um caso”, seguido de risada.

Os policiais só falaram até o momento. Alertaram que toda semana é “mais um caso”. Só não parece que estão procurando tirar o mais do noticiário.

A Prefeitura falou que a responsabilidade não é sua. Já tirou o seu da reta.

De quem é ela então?

Quantas vezes mais vamos ouvir “mais um caso” e nos privarmos de sair sem carro?

Quantos mais serão os casos que precisam acontecer para que algo seja feito?

“Mais um caso” não se trata de números.

“Mais um caso” é mais uma vítima. Mais um trauma. Mais um choro calado. Mais um grito silenciado.