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Ela

21/09/2011

Ela insiste nisso. Eu insisto em lhe dizer: “É errado, você ainda vai se dar mal!”, mas ela me ignora cada vez mais. Não sei se seu cérebro funciona de maneira mais produtiva nos horários passados da meia-noite, mas ela persiste em utilizá-lo como fonte de escape. Segundo ela, a noite é uma criança e a madrugada deve ser aproveitada. Afinal, o que não deu para fazer durante o dia, seja por negligência, sono ou falta de tempo, tem-se uma noite interminável pela frente para fazê-lo. Ultimamente anda se desafiando. Ela está achando que pode conseguir tudo o que quiser. Não sei bem que graça vê nisso. Aliás, não sei que graça ela vê em tantas coisas. Hoje por exemplo. Após madrugar refazendo exercícios de matemática, os quais poderia ter feito e refeito durante o dia, não que eu esteja insistindo em criticá-la, simplesmente quero ser detalhista como ela tanto insiste em ser, e dramática, convenhamos… Veja, estou me perdendo do mesmo modo que ela, como isso soa irritante. Bem, às 5h ela achou que seria interessante tomar uma ducha quente, o que eu classificaria como um banho interminável, afinal ela tem essas manias infantis de achar coisas a fazer, que pareçam úteis e necessárias, para dar uma fugida de suas responsabilidades, principalmente tratando-se de cálculo. Para ela essa tal ducha a faria reativar o pouco de compreensão para com matemática que ela possui. Perto das 6 da matina, o céu iniciou o processo de clareamento e trouxe junto a ele as vozes dos pássaros. Ela literalmente parou para ouvi-los. Apreciou-os sem nem lembrar que os tais costumam tratar a janela de sua cozinha como privada e a boca livre que andam praticando todos os dias por lá. Não sei que graça que ela tanto vê nisso. Questionou-se logo depois: “Será que os passarinhos cantarolam tanto assim durante o dia?”. Realmente ela persistiu o resto da manhã intrigada com isso. Felizmente descobriu a resposta, mas conto logo depois da boa nova. Aí vai. Ela está extremamente confiante com o futuro resultado da avaliação. Eu não estaria. Ela sabe bem como é péssima nessa matéria, sem ofenças. Ela até que se esforça, coitada, mas essa confiança excessiva que ela anda tendo ainda vai fazê-la mal. Não adianta contradizê-la. Ela sempre sai na mais extrema euforia e certeza de suas provas, ou seja lá o que for. Ultimamente anda fora do controle. Ela está me assustando um pouco, devo salientar. Anda rindo à toa, e o pior de tudo, muitas vezes sozinha. Sem motivos. Não lhe entendo, aposto que está aprontando alguma coisa. Mas, só estou comentando. Apenas não acho normal esses sorrisinhos e tamanha boa disposição. Ela me disse ainda essa semana, que uma das razões vem a ser motivação. Aonde já se viu motivação causar tamanha felicidade? Ela não conseguiu nada. Garota bobinha, precisa colocar os pés no chão, parar um pouco de sonhar alto. Eu aviso, eu aviso ela, mas como sempre, ela me ignora. Após a prova ela sorria ainda mais à toa, sem nem saber do resultado, e parece que anda contagiando suas companhias que a acompanhavam na mais pura normalidade. Vai entender essas pessoas. Eu é que não queria ser assim. Bom, ela precisava resolver o mistério que tanto a atormentou naquela manhã. No caminho de seu apartamento começou, sem querer, sem preparação nem concentração, a perceber os sons dos pássaros cantarolando sem parar. A partir daí, seus tímpanos apuraram-se e os sons pareciam estar mais altos e distintos do que nunca. Ela começou a perceber coisas mínimas, instigantes, inesperadas. Sons que criavam uma melodia jamais ouvida por ela. Algo gostoso. O vento batendo nas folhas da árvore com leveza pareciam estar ecoando por toda a cidade no mais alto e bom som. O barulho da água escorrendo no bueiro fazia a melodia perfeita de uma cachoeira encontrada inesperadamente no meio de uma floresta. O papel do cachorrão, arrastado ao chão, voando em sua direção, lembrava algum toque de um instrumento ainda desconhecido. O barulho da construção parecia estar em perfeira sintonia e harmonia. A bicicleta arrastada pela senhora com visível experiência de vida fazia um som que lembrava o Tic-Tac do relógio. E os passarinhos… Os passarinhos provavelmente ouviam aquilo tudo, e os fazia tornar-se melodia. Cantavam sua letra indecifrável sem parar. Sua sapatilha acompanhava o ritmo. Chegava perto da padaria e lá comprara pão. Achou divertido. A manhã chegava a seu fim, e ela sorria para mim. Eu a olhei assustada, nada conformada. O que tinha aquela menina? Ela acha graça em cada coisa, e depois eu é que sou louca.

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