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O outro ângulo do pré-conceito

13/08/2012

Mais um dia de volta para casa segue aquela mesma rotina. Malas, Táxi, Rodoviária e Rezar. Rezar para que nenhum maluco se sente ao meu lado novamente, e o fato mais desinteressante dessa última vinda foi exatamente o maluco que sentou ao meu lado – um cara de, aparentemente, 23 anos, que chupava o dedo. Porém, o que me instigou mesmo, me fazendo refletir muito, foi o que vi e senti ali mesmo, na rodoviária, esperando um ônibus atrasado.

A rodoviária normalmente costuma apresentar pessoas que eu classificaria como “mal encaradas”. Ao menos nessas minhas idas e vindas foi sempre o mais marcante. Por esse fato, sempre procuro encontrar um lugar para sentar aonde não tenham muitas pessoas ao meu redor, para evitar estresses, os quais sei que terei de passar dentro do ônibus, e neste sem lugar para fugir. Não me julgue! Só adio um pouco a rotina.

Sentei-me virada para a TV, justamente para ter um foco e não precisar olhar sem querer para alguma pessoa “mal encarada” provocando interpretações errôneas. Ninguém sentado nas cadeiras à minha frente, apenas uma moça na minha diagonal, concentrada em sua agenda, planejando pacientemente o futuro. Eis que surge um homem, de cabelos negros mesclado com o grisalho do tempo, barba mal feita. O cara, com aparentemente 50 anos, usava as havaianas originais que completaram a mesma idade este ano, azul com branco, as mesmas que eu havia comprado no dia anterior como presente atrasado para minha irmã. Ele exalava um cheiro desagradável, e carregava consigo apenas uma mala amarela, de tamanho médio, clamando por banho, e uma latinha de Skol – fechada. Resolveu sentar na minha frente, tête-à-tête.

Minha primeira reação interna foi aquela, a do pré-conceito. Passei a torcer para que o cara não viajasse no mesmo ônibus que eu, e especialmente, que não se sentasse ao meu lado. Essas minhas torcidas sempre costumam dar errado, e no meio da viagem preciso procurar outro banco vazio para ter tranquilidade. O pré-conceito surgiu naturalmente. As tais das pessoas “mal encaradas” que citei, podem levar como exemplo este cara, o de 50 anos e sua lata de cerveja Skol. A reação mais natural traz o medo de tal pessoa mexer com você, de um modo não agradável. Porém, tirei outras conclusões durante aqueles 25 minutos em que aquele cara apareceu e permaneceu ali na minha vida, baseadas no pré-conceito, mas dessa vez outro. O outro ângulo do pré-conceito. Aquele por trás do cheiro desagradável, barba mal feita e havaianas de pedreiros hoje tão desejadas, porém sujas.

Ignorando Globo Repórter, passei a observar o cara. Era impossível não perceber seus movimentos e expressões perdidas. Ele jogou a mala no chão, sentou-se, e calmamente colocou a lata de Skol no banco ao seu lado. A moça da diagonal, agora estava à 3 cadeiras distante dele, e mal olhava para o lado. Ele parecia cansado, mas decididamente com sede. Sede daquele álcool. A paciência do mesmo mostrou-se por ele colocar a lata na cadeira ao lado, parar um pouco, respirar, segurá-la novamente, e começar um desafio. Abrir a lata! A dificuldade dele foi surpreendente para mim. Meu pré-conceito imaginaria que ele seria a pessoa mais foda do mundo para abrir latas de Skol. Em um certo momento ele desistiu, sentindo-se visivelmente derrotado, lamentando seu estado. Ainda segurando a latinha e sem muita capacidade para falar, levou-a direção moça da diagonal e sua agenda, a qual sequer olhou para ele. Ou seja, a próxima opção, era a moça à sua frente. Eu.

Ele redirecionou  mão e lata de Skol para mim, esticando o braço e suplicando sem força na voz e palavras para que eu abrisse para ele. Não foi preciso entender o som da sua voz e o sentido das palavras. Ele queria que eu abrisse. Olhei para ele, olhei para a lata, e isso resultou em 5 segundos da minha mente raciocinando a situação. Por que eu recusaria esse favor a esse homem? Ainda hesitando, peguei a lata e abri rapidamente, devolvi a mesma e desviei o olhar. Senti que havia feito a coisa certa. Mas observá-lo tornou-se a coisa mais interessante naquela espera do ônibus atrasado.

Ele não protagonizou em momento algum movimentos bruscos. Ingeria um gole de cerveja, e o próximo só viria em longos intervalos. Sempre que o fazia, devolvia a lata para o banco ao lado, calmamente. Nesses momentos em que a bico já estava molhado e o álcool saciando algum vício, como meu pré-conceito me disse, ele me intrigava pelas suas expressões. Colocava a mão na testa, abaixava a cabeça, e meu pré-conceito foi mudando de ângulo. O passado. À todo momento em que a moça da diagonal e sua agenda ignoravam-no com repulsa, eu sentia a tristeza naquela face. Os gestos ficavam ainda mais singelos e calmos, demonstrando até mesmo uma preocupação em não incomodar alheios. Logo, ele se direcionou novamente para mim, e dessa vez era uma dúvida perigosa para uma pessoa já tão perdida: “Que horas sai o ônibus?”. Traduzi sua fala sofrida nessa pergunta, demorei uns 10 segundos para tal, e como ele não apresentava passagem alguma nas mãos, além de eu não me sentir totalmente confortável mesmo com meu pré-conceito em um ângulo diferente de todos os presentes naquela rodoviária, minha única resposta poderia ser “Não sei!” – e foi.

A moça da diagonal e sua agenda levantaram-se para sentar em outro banco. A tristeza consigo mesmo do cara foi visível, e me direcionou inúmeros pensamentos e pré-conceitos, os do passado daquele cara – sem ignorar o presente. Logo meu ônibus chegou e me levantei. Ele persistiu sentado, e direcionou uma pergunta para quem lhe respondesse, mas fez-se impossível traduzi-la. Fui para o ônibus, sentei-me desconfortavelmente com um bebê de 23 anos chupando o dedo ao meu lado e um banco que não satisfazia minha coluna. Passei a viagem criando inúmeros pré-conceitos, em outros ângulos, sobre aquele cara e sua lata de Skol. Sempre que garimpo algum objeto de brechó, sebo, ou mesmo vejo algo antigo de fato, passo a imaginar deliciosamente por onde esteve, com quem esteve, como esteve, quando esteve… Meu método de refletir passou a ser usado para o passado de um homem, para nossa sociedade atual, relativamente novo, na metade da vida, perdido em uma rodoviária sem força física nem mental. Sem ninguém. Passei a imaginar com quem aquele cara poderia conversar. Quem, por um acaso, daria uma palavra de conforto para ele? Onde ele conseguiria uma oportunidade para viver de novo? Imaginei que em todos os lugares em que ele chega, as pessoas se afastam. Eu senti um ar tão intenso de arrependimento, de sofrimento, ou mesmo de tristeza vindos das expressões dele, que meu pré-conceito foi viajando para o passado. O que aquele cara viveu durante esses 50 anos, para no dia 10 de agosto, às 23h, estar sentado em uma rodoviária naquelas condições?

Aquela maldita mania do pré-conceito, tão inevitável. Refleti insaciavelmente sobre as oportunidades que essas pessoas não têm na vida, ou perderam-nas, mas que nunca serão reconquistadas. Que essas pessoas, em certa idade, não tem apoio nem mesmo daquela solidariedade rara. Pessoas sem pessoas. Imaginar que à cada aproximação de outro ser humano, resulta em um recuo. Abri a Skol tremendo, entretanto eu nunca havia tido um olhar tão sensível para uma pessoa nessas condições, afinal, acaba-se por imaginar mil e uma coisas ruins sobre esses “mal encarados”, você e todo o resto do mundo. E mesmo após 25 minutos, a cerveja, mesmo quente, persistiu acompanhando ele com minha ausência, com sua calma atuando em intervalos longos e intensos.

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2 Comentários leave one →
  1. Marina permalink
    17/09/2012 6:59 PM

    Li o que vc escreveu como se eu tivesse escrito.. Jah tive uma experiencia parecida e também “conclusões” parecidas..

    Adoro teu blog! Parbéns!

  2. Sonia permalink
    14/08/2012 8:05 AM

    Olhar sensivel bah…
    Fazer o Bem , não importa a quem, nos faz tão bem…
    Bj Linda.

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