Skip to content

O tal do choque cultural

01/04/2014

Eu não imaginava que isso fosse acontecer, mas estando aqui na Grécia, meu choque cultural maior está sendo por conhecer a cultura Chinesa através da Clio. Pois é!

Conheci várias chinesas na Tunísia e nos tornamos muito amigas, porém eu devo admitir que explorei pouco a oportunidade de conhecer a cultura chinesa com elas. Entretanto, aqui com a Clio eu tive a oportunidade de realmente ter um choque, não só cultural, mas um choque mesmo. Ao acordarmos na segunda madrugada em Santorini depois de um susto, perdemos o sono e tagarelarmos sobre as diferenças do Brasil e China durante umas 3 horas. Fiquei absurdamente curiosa com a China  e  além da minha surpresa com as coisas que ela me contava, quanto mais eu falava sobre a realidade do Brasil, mais eu tinha um choque cultural do meu próprio País e mais eu conseguia refletir sobre o quanto tem coisa errada acontecendo no meu berço. Isso me deixou mal. E acho que foi mais fácil aprofundarmos tanto nesses assuntos porque para mim está sendo muito mais fácil me adaptar a vida em Atenas do que para ela, afinal é a primeira vez que ela sai da China e as diferenças da cultura dela para cá são enormes.

Conversamos sobre absolutamente tudo. Lifestyle dos jovens, festas, universidade, educação, família, cultura, governo e outros inúmeros fatores. Minha conclusão no fim foi que colocar Brasil e China no tal do BRIC faz muito sentido, pois por mais que sejam países completamente diferentes falando em cultura, eu e a Clio conseguimos enxergar semelhanças muito além do específico, mas sim da fase, de uma situação que estão passando – e eu não falo só de estarem em pleno desenvolvimento econômico.

A Clio concordou comigo quando, depois de ouvir tudo o que ela disse, eu afirmei que o governo chinês parece colocar um tapa olho em todo mundo e não deixa que nada que esteja fora do limite territorial chinês (e isso vale para o mundo virtual também) chegue até eles, com a falsa ilusão de proteção ou segurança para seu amado povo. E isso trouxe uma percepção na minha cabeça de que lá eles vivem uma ilusão de vida, assim como no Brasil. Lá é com outro argumento, e é tirando youtube, twitter, facebook, dificultando a saída de chineses para o mundo tornando um inferno a conquista de visto, focando crianças e jovens apenas e simplesmente para os estudos, e tudo, tudo que lá acontece é simplesmente aceito, sem questionamentos, porque para eles é normal. A Clio, uma jovem universitária de 23 anos, é claro que se questiona com seus amigos às vezes sobre muitas coisas, mas me disse que se tentarem protestar ou manifestar alguma opinião contrária, serão calados rapidinho.

No Brasil, eu vejo uma ilusão de vida também, mas de um jeito diferente. A gente acha que é livre. Achamos que temos liberdade de ir e vir, mesmo pagando por isso, que temos educação só porque existem escolas e universidades públicas, que colocando cota para negros e estudantes de escolas públicas a justiça é feita, mas só vejo mais uma doce ilusão para os próprios beneficiados disso, afinal, para que melhorar o ensino público, né? E eu me recuso a comentar a ilusão do ENEM. Que estamos melhorando a desigualdade social através de bolsa família, chegando até a bolsa meu pai foi preso. É um país tropical, onde todo mundo sorri e é receptivo e feliz, que a gente se revolta e pode protestar fazendo mil manifestações no país inteiro, ou seja, temos poder e liberdade por podermos fazer isso. Vemos notícias quase que diariamente sobre mensalão e outras nojeiras, passando a ilusão de que sabemos de tudo e que não existe censura, mas o poder escolhe dedo a dedo o que querem mostrar e o que querem esconder na mídia, e ela nos manipula mais do que eu posso imaginar ou exagerar na minha cabeça, e claro, que é um país democrático onde todo mundo tem direito a voto, mas sempre somos obrigados a escolher entre 3 ou 4 opções, uma mais nojenta que a outra. E assim, achamos que a democracia acontece.

Na boa, tudo não passa de uma pura ilusão. A gente vai vivendo se iludindo fácil por fatos que parecem mas não são, e mesmo depois do gigante acordar, e sim, eu estava lá também manifestando e gritando, alguma coisa adiantou? Teve até belos incentivos das próprias pessoas que causaram isso, os tão criticados políticos que continuam lá, com o belo discurso de que o povo deve sim lutar pelos seus direitos.

E aí eu experimento transportes públicos incríveis em outros lugares, por exemplo aqui em Atenas, e eu me lembro do que já experimentei no Brasil. Um dia acordo e vejo o resultado de uma pesquisa no Brasil sobre estupro, onde mostra que mais da metade dos entrevistados acreditam que é merecido uma mulher ser estuprada caso use uma roupa provocante ou um pouco mais curta do que os hormônios masculinos são capazes de controlar. Fico sabendo que dentro da minha própria universidade, assaltada todos os dias por ninguém menos que Beto Richa, está tendo casos e casos de abusos sexuais e assaltos, e isso inclusive em plena luz do dia (como se durante a noite fosse uma justificativa ou tornasse normal). Vejo caso de pacientes recebendo tratamentos absurdamente sérios no chão do corredor de um hospital público. Vejo comentaristas sendo demitidos de um programa de TV porque falam a verdade sobre nossa Presidente, Dilma. É essa ilusão que o Brasil vive.

O pior de tudo isso é que desde que comecei meu intercâmbio uma das coisas que mais fui questionada foi sobre as favelas e se é realmente verdade que no Brasil você pode ser assaltado a qualquer hora, inclusive a mão armada. Me assustou muito eu responder com naturalidade que sim, é normal, e que eu por exemplo, mesmo me arriscando as vezes em sair sozinha de noite,  por dentro estou morrendo de medo de ser estuprada ou assaltada com uma faca, na esquina da minha casa (afinal uma semana atrás algum amigo meu provavelmente foi, na mesma rua). E isso é verdade! O pior, é que nós brasileiros passamos a achar normal. Na verdade eu espero que esteja errada em afirmar isso, mas é assim que eu estava semanas atrás, achando normal.  Não é normal, é absurdamente fora do normal. E aí você vê outras coisas que se tornaram normais, como políticos roubando dinheiro e colocando dentro da meia, ou tirando o dinheiro que deveria ser investido na sua universidade, que se diz a melhor do Paraná, mas se isso é o melhor… E as coisas vão assim, se tornando normais. Talvez porque acontecem todo dia, sei lá.

Eu eu vou colocar a culpa no governo, a culpa da conformidade das pessoas, a culpa em acharmos normal, a culpa nas leis não cumpridas ou falta delas, a culpa inclusive em alguns professores que estão ali só para ter seu salário garantido pelo concurso público, e isso vai virando um ciclo vicioso de culpa e culpado (e no fim eu tenho a certeza que a culpa de tudo isso é o lixo da educação de base). E eu quero culpar a Copa do Mundo também. Eu sinceramente estou pouco me lixando se o Brasil está aparecendo mais para o mundo (e pelo que eu ouço do pessoal de fora sobre o Brasil, só a Dilma está achando que imagem anda boa). Estou pouco me lixando para o que o mundo vai pensar em ter dois grandes eventos mundiais no Brasil. Se a imagem era a preocupação, já se estragou com o mundo todo sabendo como anda a preparação para a grande copa (aqui em Atenas meus amigos gregos disseram que é só esse tipo de notícia negativa sobre a Copa que se ouve do Brasil, pois é). O que eu estou me lixando, e muito, é a situação que o meu País se encontra. Não me entra na cabeça, de forma alguma, investir tanto dinheiro para um evento deste tamanho, para estádios que nunca mais serão usados. São milhões e milhões enquanto a educação está cada vez pior, enquanto não se tem segurança nem na esquina de casa ou nem dentro da própria universidade, enquanto o transporte público é uma piada, enquanto tem gente morrendo todo dia no corredor de hospitais públicos, e enquanto mais da metade de população acha que mulher merece ser estuprada. E é essa é a ilusão que o Brasil vive, nosso país democrático e tropical.

Me desculpe, mas é inevitável você se inconformar mais com os problemas do seu país quando vê, vive ou ouve realidades tão diferentes. É inevitável. E é se comparando que se vê que pode melhorar, que se fica inconformado para mudar alguma coisa e que se lembra que muitas coisas não são ou não deveriam ser normais. E é como eu estou.

Para mim faz tanto sentido o governo da China mandar os melhores produtos para exportação, deixando os de menos qualidade para os chineses, como fazer a Copa do Mundo no Brasil na situação que se encontra. Isso não faz sentido. Para uma Presidente que não quer nem discursar com medo de ser vaiada, acho que a louca não sou eu.

Anúncios
One Comment leave one →
  1. Nando permalink
    02/04/2014 12:34 AM

    É Bah, gostei do paralelo traçado com a China! O BRIC, na verdade representa nada mais do que opressão, miséria, autoritarismo… e há quem diga que somos emergentes… Acho que tem razão: a miséria emerge, a violência emerge, a corrupção emerge… realmente somos emergentes!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: