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Basta ser mulher

11/12/2014

Eu nunca respondo, nem olho. Às vezes faço cara de desprezo e nojo, mas nessas eu sinto mais medo. E aí eu só volto a fazer quando não consigo ignorar mais uma vez.

Seja o cara do supermercado, o desconhecido que atravessa a faixa de pedestres ao meu lado. Seja aquele com idade para ser meu avô e que eu não esperava ouvir coisa alguma. Seja o motoqueiro, o cara do ônibus ou o homem com idade para ser meu pai que dirige seu carro e parece ter uma família legal. Sejam os pedreiros daquela construção que agora eu evito passar perto, ou os 5 caras no mesmo carro com som alto. Seja a buzina do carro que passa bem na minha frente e as palavras de quem dirige que não consigo decifrar.

Indo na padaria, no shopping, na feira. Esperando o ônibus, indo para casa ou indo votar. Dentro da universidade, comprando alguma coisa no bar perto de casa ou sentada no banco da barraquinha de cachorro quente. Seja sozinha ou acompanhada. Seja 7h30 da manhã, 10h, 12h37, 13h41, 16h34, 18h52, 20h16, 22h23, 00h49 ou 5h da matina. De saia, de vestido, de shorts, de calça. Com salto, sem salto. De batom e sem batom. Com fone de ouvido com música, sem música ou sem eles. Falando ao telefone, não importa.

Eu nunca respondo, nem olho. Mais que desprezo, mais do que nojo, mais do que não conseguir entender o porquê, eu sinto medo, muito medo. Eu saio de casa sabendo que terei que desviar de um grupo deles aqui ou ali, que naquele bar eu não tenho paz se perto chegar. Eu não quero novamente aquela sensação estranha de passar na calçada onde de um lado os donos do bar falam alguma coisa, e seus clientes sentados nas mesas na calçada falam ainda mais.

São uns 15 minutos sozinha em um ponto de ônibus no telefone com a minha mãe, e nesse meio tempo, cerca de 20 homens, independente do transporte usado ou idade, mexeram comigo. Alguns de moto até foram mais ousados e pararam um pouco bem na minha frente. Eu não pude olhar, nem responder, pois eu não sei o que aqueles poderiam ter feito.

Esses dias eu aguentei dois garotos, pouco mais velhos que eu, andando atrás de mim, aplaudindo e falando algumas coisas que não quero reproduzir, mas uma delas foi “Que que foi? Tá ficando com medo é?” e risadas, é claro.

Não precisa ter um corpo incrível ou usar uma mini saia. Basta ser mulher.

Você vai ouvir homens chamando Deus ou a Nossa Senhora o dia inteiro. Ouvir um gostosa, delícia, ô maravilha e por aí vai. Convites e propostas que nunca iria aceitar. Se não responder, vai ser chamada de antipática ou passar a ser feia de um segundo para o outro. Se responder, corre o risco de ouvir ameaças – e ainda pior, corre o risco de que elas aconteçam.

Acima de qualquer cantada, qualquer lugar, qualquer companhia, vai sentir medo. Todos os dias, seja na frente de casa ou na padaria.

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