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Eu e meus cachinhos

23/01/2015

Eu assisti a esse vídeo e fiquei bem emocionada, mas por incrível que pareça me lembrei apenas no final que passei boa parte da minha infância desejando ter os cabelos lisos como de todas as minhas amigas, minha mãe, minha irmã ou da Sandy. Por mais que sempre minha família insistisse em dizer que meus cachinhos eram lindos, eu nunca consegui enxergar a mesma coisa.

Quando eu estava prestes a completar meus 12 anos tive  uma das primeiras festinhas de noite (lê-se fim de tarde), onde os meninos chamavam as meninas para dançar música lenta trabalhada na trilha sonora de Malhação. Foi nesse mesmo dia que minha vida teve alguns marcos importantes, um deles seria o meu primeiro contato oficial com uma prancha. Alisei meus cabelos pela primeira vez com a ajuda da minha irmã e saí mais confiante do que nunca. Além de ser a primeira vez que usei lápis preto nos olhos, os cabelos alisados me proporcionaram muitos elogios e inclusive sinais de que o menininho que eu gostava pudesse gostar de mim também.

Os anos foram passando e naquela época alisamento definitivo no cabelo era algo bem fora da minha realidade. Era tão fora que eu só conhecia uma menina que havia feito e pago bem caro por aquilo, o que hoje em dia é bem diferente. Aquele passou a ser meu desejo constante, ter meus cabelos lisos pelo resto da vida. Enquanto isso ficava só nos sonhos, passei a esquecer que meus cachos existiam e comecei o que eu chamo de “queimar meu cabelo”. Eu acho que fiquei viciada em fazer prancha na realidade, pois por mais que eu fizesse e o cabelo estivesse liso, eu não sairia de casa sem passar novamente nas mechas superiores.

Existem alguns momentos específicos que eu recordo de me sentir realmente mal ou mesmo evitar alguma atividade por conta dos meus cachinhos. Por exemplo, quando eu ia em uma piscina não suportava o fato de ter que molhar o cabelo e ele secar naturalmente na frente de qualquer outra pessoa. Quando completei meus 15 anos enfim realizei meu sonho de ter cabelos lisos para sempre, e continuei assim saindo do salão de beleza com os cabelos-lisos-até-que-nasça-a-raiz por 8 anos – até hoje.

De amigas eu só recebi comentários positivos quando fiz essa “transformação”, afinal ter cabelo liso sempre pareceu ser o ideal e belo e eu não tinha referência de outras garotas com cachinhos. Na minha sala, por exemplo, não havia nenhuma com cabelos cacheados, simplesmente nenhuma. Diferentemente deste mundo do colégio e de pré-adolescentes, minha mãe sempre disse e diz para eu parar de alisar as madeixas e meu pai e avó relembram até hoje como era bonito os meus cachinhos pulando.

Quando eu tinha meus 12 anos minha vida escolar era regada a muitos apelidos, nunca por conta do cabelo talvez porque eu fazia prancha e não dei muita brecha para me zoarem, mas tive outros, como exemplo ser zoada pelo meu nariz. Eu não encaro muito aquela época ouvindo brincadeirinhas e piadas como algo traumático pois sofri pouco até onde lembro. Não costumava dar muita bola e sempre procurei praticar o conselho dos meus pais de levar na esportiva. Entretanto, algo me fez refletir um pouco sobre a razão de eu começar a aceitar meu nariz e gostar de mim independente disso. Minha mãe sempre soube que eu era insatisfeita com isso e conseguiu me fazer acreditar que nariz como o meu significava ter personalidade, como a Gisele Bündchem ou Deborah Secco.

Hoje eu vejo como esses inúmeros padrões estéticos e de beleza que somos bombardeados à todo momento são tão extremos, distorcidos, desvalorizam as pessoas ou nos fazem acreditar em algo que não existe no mundo real. Cada vez que fico mais velha, eu passo a aceitar meus “defeitos” muito mais e me gostar do jeitinho que sou – seja com cabelo liso ou cacheado. Ter tido como referência graças a minha mãe aquelas mulheres incríveis e com algo fora do padrão de beleza com certeza fazia com que eu me sentisse melhor e mais “normal”. Os cachinhos infelizmente não tiveram tantas referências a não ser eu e meu espelho, por isso talvez hoje mal tenho notícia deles. Quem sabe se eu tivesse tanta personalidade como essa garotinha aqui naquela época, nunca teria abandonado minhas ondinhas.

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