Skip to content

Sobre publicidade e sua responsabilidade

27/03/2015

A minha história com a publicidade nasceu quando eu era bem novinha, lá pelos meus 10 anos de idade. Era um típico Natal em casa como mandava a tradição, e eu estava arrumando os guardanapos em todas as mesas com muito gosto. A época também era aquela da clássica novela Celebridades, e meu sonho era ser uma produtora de eventos como a protagonista. Foi depois desses ocorridos que minha irmã fez um comentário simples, mas que me deixaria com a ideia de ser publicitária até os dias de hoje: “Barbara, você pode cursar publicidade e trabalhar com eventos!”. Pronto, neste dia se enraizou a ideia que nunca mais saiu da minha cabeça.

Acabei entrando em Administração, mesmo indo contra meu desejo, e no momento estou nos últimos anos do curso. Acontece que felizmente eu entrei no mundo da publicidade literalmente ano passado, quando consegui meu primeiro emprego em uma agência. A parte de eventos foi esquecida talvez com 11 anos de idade e provavelmente eu não a encontraria muito nesse universo. O que sempre me despertou interesse foi a criação, a estratégia, a ideia, o brainstorm, o sair fora da caixinha, ou seja, de onde surge o que será disseminado para o público .

Em meio a tantos questionamentos que vivem rodeando minha cabeça, seria impossível eu não pensar sobre como a publicidade e propaganda pode ser usada de forma inadequada e negativa. Eu sempre procurei compreender muito que isso existia. Ao mesmo tempo, eu me apaixono cada vez mais pela área diante da possibilidade de levar mensagens inspiradoras e positivas para as pessoas, a capacidade de encantar, de agregar uma ideia a coisas que poderiam passar despercebidas no cotidiano. Sobre como a publicidade é capaz de fazer sorrir e inspirar.

Ser um publicitário para mim é algo de extrema responsabilidade. Existem tantas linhas tênues nessa área que o desafio de trabalhar nesse mundo é algo constante, é diário. Você precisa abrir mão de gostos pessoais, entender que nem sempre o consumidor seria alguém que pensa como você. Precisa ser cabeça aberta e ter claro que seja lá qual for a mensagem que aquela peça, comercial ou uma simples frase de 3 palavras será capaz de influenciar tantas pessoas, causar emoção, raiva, sorrisos, desgosto… Enfim, ações e reações.

O que ando vendo ultimamente são ondas e ondas de campanhas, ações e comerciais sendo recepcionados diariamente de forma bem crítica e negativa. Se você usa o facebook, provavelmente sabe que me refiro a Palmolive, Skol, Ministério da Justiça, Itaipava, Fast Shop, Always e claro, a mais recente, Risqué.

O que eu penso diante disso tudo? Que a publicidade parou no tempo, mas o público não. Eu sinto como se uma das áreas que mais se esperaria ter mente aberta, preocupação com a mensagem que será passada para tantas pessoas, e claro, sobre quem vai vê-la e ouvi-la, não estivesse tão em alerta ou conectada com o que está acontecendo – algo meio estranho,  não?

Vamos partir primeiramente da hipótese de se tratar de uma marca que simplesmente esteja preocupada que sua campanha dê certo. Mesmo que seja este o caso, porque diabos ela acha que dará certo dizer que para as mulheres terem mais tempo livre devem comprar uma máquina de lavar? Além de simplesmente reforçar o estereótipo sexista sobre atividades domésticas, onde foi parar o conhecimento sobre o momento em que vivemos tão abertamente na luta pelos direitos iguais – leia-se feminismo – e fim aos estereótipos?

Agora vamos pensar em uma marca que tenha a mente aberta, seja feita especialmente para mulheres independentes e que queiram se sentir bem, e que provavelmente defendam e acreditam no feminismo como uma luta em que estamos todas e todos juntos, homenageie em seus esmaltes homens que simplesmente fizeram um jantar. Porque diabos uma marca que é feita para mulheres fez isso acreditando que iria dar certo? Como ela vai contra o que seu próprio público quer conquistar?

Em ambas as situações, o que foi que faltou – aliás, em todas? Será que foi bom senso? Será que estavam um pouquinho desatualizados com o contexto em que vivemos? Será que foi uma mente fechada e machista? Falta de conhecimento? Falta de criatividade, verão?

É inegável que algumas delas tiveram ótimas intenções, mas faltou ou extrapolou em algum ponto, como a Always. Porém, em sua grande maioria o que predominou foi uma falta de bom senso e presença de machismo descarado. Foi ignorar a responsabilidade que é atingir milhões de pessoas que podem encarar como verdade absoluta o que veem no comercial da novela das nove da Rede Globo, onde uma mulher é simplesmente tratada como um objeto. Foi não entender que os anos 60 já se foram e que comerciais em que tratam a mulher como uma mera responsável pelos afazeres domésticos, já estão ultrapassados e longe da nossa realidade – ou pelo menos da que ainda estamos conquistando.

 3

1947

2

2015

É muito estereótipo. É muito machismo. É muita falta de criatividade. É muita falta de bom senso. É muita desconexão com a realidade e contexto atual. É não perceber que felizmente o mundo está mais crítico e não, não aceita mais calado ao ver ou ouvir qualquer coisa. Já está ultrapassado. A responsabilidade sim, aumentou. Aqui não é ser chatinho, ser feminazi, ser extremista, ser politicamente correto. Aqui é entender o contexto, o mundo, as mudanças, o seu público e oras, também quem não é o seu público, mas ainda assim recebe e ouve sua mensagem, é crítico e vai além do que subtende-se em cada palavra de um simples comercial. Aqui é perceber a responsabilidade de ser publicitário, ou seja, de levar uma mensagem e ideia ao público, de disseminar algo que pode ser tomado como verdade absoluta e incentivar velhos e ultrapassados pensamentos de uma sociedade patriarcal e machista na qual vivemos.

Desde a piadinha sobre alguém que não pesa o mesmo que a modelo da passarela em uma conversa entre 3 pessoas, até a propaganda de cerveja com uma mulher seminua sendo tratada como objeto no horário comercial da Rede Globo, são responsáveis por perpetuar e fazer com que as coisas não andem para a frente, não mudem e continuem assim, tão atrasadas, até mesmo vindas de onde menos se espera.

E se você acha tudo isso um grande exagero, é porque ainda não entendeu que o problema é bem mais embaixo.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: