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Não dá pra agradar todo mundo

24/05/2016

Dia desses fui com poucos e bons amigos a um café que pode ser considerado acima da média. Bom, não que a gente esbanje dinheiro, longe disso. Porém, às vezes gostamos de ostentar um pouco.

Coloquei minha nova saia favorita e achado de um brechó, até os joelhos, uma blusa de manga comprida e minha sandália que eu considero o calçado mais ousado que já comprei na vida – e o mais lindo, talvez?

Um dos meus amigos estava usando um suspensório (o que eu achei o máximo), e aquilo foi uma das coisas que rendeu boas conversas no fim de tarde. Comentamos sobre como se vestir é algo que vai muito além de colocar uma roupa. Se vestir pode ser uma forma de comunicação, se você quiser. Aliás, não apenas se você quiser, pois de certa forma aquilo pode dizer muito sobre você, queira ou não queira. E por mais que para muitos isso possa soar fútil, nossa conclusão naquele dia é que quando nos vestimos com o que queremos, como queremos e sem seguir a algum padrão, é muito libertador.

Eu sou muito adepta a essa ideia, que se vestir é um processo de descoberta, de identidade e personalidade. Ao menos para mim é assim, e eu percebo que essa descoberta, cada dia que passa, se torna mais real e genuína no modo de me vestir.

Eu já passei por muitas fases e, em muitas delas, devo admitir que eram por pura influência externa e não realmente o que eu gostava – o que está totalmente ok, afinal, é provando que se descobre, certo?

Vamos pular do meu nascimento – em que eu não tinha muito palpite sobre minhas roupas – para o dia em que, com uns 8-10 anos de idade, eu usei um casaco maravilhoso para ir no inglês. Era frio e aquele casaco me deixava quentinha e parecida com uma ovelhinha. Eu realmente gostava. Porém, ao chegar na escola, tive que ouvir a professora perguntando se eu estava indo para o Polo Norte. Sim, aquilo me deixou muito mal. Ela tirou sarro do meu casaquinho e conseguiu, mesmo sem intenção ou maldade, me fazer abandonar ele para sempre no fundo do guarda-roupa.

Eu fui crescendo e até que parei de ligar para a opinião alheia nesse ponto da vida. Tanto é que, dentre as minhas amigas do colégio, eu era a mais fora do normal. Usava meu cinto de tachinhas, meu cabelo meio rosa, meu olho pretíssimo e meu All Star todo assinado (eu achava o máximo). Depois, fui chegando na fase dos 16 anos e me rendi ao padrão de todo mundo a minha volta. Talvez eu quisesse me enquadrar naqueles grupos, mas no fundo, eu estava realmente perdida.

Foi quando eu entrei na faculdade que meu processo de descoberta sobre minha identidade foi acontecendo de verdade. Acho que pelo fato de ir morar em uma cidade maior, conviver com pessoas que ainda não me conheciam, me trouxe coragem para me deixar ser quem eu realmente era. Infelizmente, nem tudo são flores, e pela segunda vez eu fui bloqueada por uma pessoa que, essa sim, foi maldosa. Em uma tarde, quando ainda caloura, eu coloquei um vestido, um colete e um oxford azul. Saí confiante, feliz e me sentindo corajosa por vestir aquela roupa que não era tão usual para mim na época. Mal cheguei na esquina de casa e uma menina, acompanhada de seu namorado, disse: “Não deu certo, ficou horrível!”. Pronto, esperei eles sumirem da minha visão, voltei para casa e caí aos prantos.

Queria saber onde eu tinha aprendido a me importar com a opinião alheia daquela forma, como aquilo me afetava tanto. Mas, hoje eu entendo. Era todo um processo de aprendizagem. Eu não imaginava que, aos meus 23 anos, em um café que, como a sociedade diz ser, apenas pessoas educadas frequentariam, eu precisaria lidar com algo semelhante.

Voltando ao início desse texto, depois de horas de conversa no café, chegaram dois casais. Antes mesmo de sentarem na mesa ao nosso lado, começaram a dar risadinhas descaradamente olhando em nossa direção. Não entendemos nada e deixamos pra lá. Continuamos com nosso papo. Acontece que, nem as duas mulheres, nem os dois homens, paravam de olhar para nós e rir. Foi então que ouvi de uma delas: “Isso não pode ser normal”.

Não, não existia motivo algum para rirem. Realmente tentamos entender o que poderia ser, cheguei a cogitar que fosse pelo meu novo corte de cabelo, talvez? Mas será possível? Até que eu olhei para minha linda sandália e pensei na possibilidade de ser ela o motivo. Só que duvidamos disso, até que em certo momento uma das mulheres estava rindo e olhando diretamente para ela, minha sandália. Nossa indignação ia além do aparente motivo da graça, mas era também pela necessidade de todos eles rirem, de querer constranger alguém assim, lado a lado, sem ao menos nos conhecer. E sim, com um olhar maldoso e intencionalmente ofensivo, superior.

Foi então que meu amigo foi ao banheiro e voltou sem o casaco. No caso, agora o suspensório era visível e todos na mesa riram descaradamente do tipo: “E agora, mais essa?”. É, eu e meus amigos ficamos em choque, assim como eu espero, você está.

Ao sairmos do café, pasmos por perceber como ainda existiam pessoas tão fechadas em seu mundo, nos padrões e no que é ou não normal, eles nos encararam até o momento de fecharmos a porta. Fico pensando o que eles achariam se eu dissesse que penso que roupas não deveriam ter gênero. Bom, mas isso é assunto para outro dia.

Diferente da época em que eu tinha meus 18 anos, caloura, em uma cidade nova e em pleno processo de descoberta, eu não senti vergonha alguma por estar usando aquela sandália maravilhosa – por estar usando o que eu queria. E isso foi incrível, pois quando você realmente descobre sua identidade, simplesmente não se importa nem mesmo se rirem na sua cara. A autoconfiança e autoestima são tão superiores a um riso maldoso ou ao que é considerado normal para uma sandália, roupa, cabelo ou seja lá o que for que te faça bem, que nada, nada mesmo, pode te abalar.

Não dá para agradar todo mundo. E afinal, porque eu iria querer isso?

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